Ao meu redor, muitos têm cara de sono. Não escondem o mau humor de ter que acordar fora do horário habitual. De ter que novamente separar roupa, arrumar mala, pegar táxi, engarrafamento para entrar nessa rotina fora da rotina. Por trás de ternos e vestidos bem passados, um descaso pelo ato de chegar, embarcar, voar, ir e voltar. É um ato banal para eles. Até esquecem que daqui a minutos estarão a muitos mil pés do chão firme. Que o avião pode muito bem ser desfavorecida por Deus e cair.

As portas são fechadas. O aviso para desligar os aparelhos eletrônicos é acionado. A aeromoça dá as instruções de segurança, manda que todos leiam o cartão e apertem o cinto. Pelo sim, pelo não, faço minhas orações. Essas rezas, nesta hora que as luzinhas de alerta são acesas, não são bem quistas, nem bem vistas, principalmente para mim, que sou um sacerdote, homem que tem que carregar calma e temperança. Assim ajo com sutileza ao apertar com força o terço e com força pedir a Deus para que nada aconteça.

Levo uma vida serena. Nunca deixei de cumprir com minhas obrigações. Minhas missas são ministradas com a paixão de medida certa. Não sou padre de euforias, de muita novidade. Conto as vezes que tive que sair de minha cidade, do meu horário. Sempre sonhei em ir à Jerusalém ou ao Vaticano, mas me conformo com fotos e documentários da televisão, com o que leio nos livros. Já sou velho, me restaram poucas vontades. Já sou velho, não nego que esses medos da morte já deveriam ter passado, mas o engraçado é que ainda tenho medo de algumas formas de morrer. Para ser mais exato, tenho temor do súbito esquecimento.

Não tenho medo de ter um enfarto fulminante. Agora mesmo, se o tivesse, morreria feliz. As turbinas seriam desligadas, uma ambulância tentaria me reanimar, mas em vão, daí seria dado início às exéquias. Os irmãos me levariam à paróquia, ali velado e zelado. O cortejo de entupir rodovia me encaminharia para que eu fosse enterrado. Não temo ter finalmente meu corpo servido aos vermes, minha alma já estaria nos céus com os santos, o que estaria ali sobre a lápide seria um símbolo, meu corpo presente. Assim como os santos, que antes de canonizados foram beatos e que antes de beatificados foram homens como eu, eu também teria um lugar em que me encontrariam, para onde a primeira romaria seguiria, inaugurando o começo da minha vida eterna.

Tenho medo é que de uma hora para outra este avião perca seu rumo, entre em parafuso e caia de focinho contra o chão. Neste caso, não serei mais nada. Virarei, mais rápido que se pense, um apanhado de cinza, pó, fuligem. Matéria irreconhecível sobre o mar ou uma área impenetrável da mata atlântica. Serei estatística e só. O túmulo sonhado não existirá. Não existirá o lugar para que os meus fiéis lamentem minha morte. Apenas uma notícia fria que alimentará por dias o noticiário. Não será lamentado meu nome. Uma lista impessoal dos infortunados passará tão rápido que ninguém conseguirá ler. O noticiário estará mais preocupado em buscar culpados e audiência. Eu serei apenas o homem que estava sentado no assento 8F.

Aqui agora ao meu lado, uma mulher chora, não adiantou para ela o remédio dos nervos. Mesmo com os meus nervos à flor da pele, tenho que consolá-la. A batina que carrego me obriga a isso. Penso em lhe contar este segredo: moça, eu tenho mais medo que você. Mas não funcionaria. Cada qual que debulhe por si só seus medos. Fecho os olhos e rezo: Deus, que um dia o Senhor me leve, mas antes me faça merecedor de um local para que minha memória resida, um lugarzinho na cidade que nasci, no cemitério onde meu pai e minha mãe até hoje me esperam, onde meus sobrinhos e as beatas no dia de finados possam cantar hinos de louvores ao homem humilde que fui. Oh, meu Deus, faça que eu vá e volte em paz nesta viagem. Oh, meu Deus, E me dê, no fim dos meus dias, uma morte normal.

O pássaro de asas levanta voo. A mulher finalmente se rende à química e dorme. Eu, todo trêmulo, só descansarei quando estiver novamente em terra firme, de volta à minha rotina. Não quero de uma hora para outra ter meu nome ao lado desta, de igual para igual. Eu tenho história. Quantas vidas salvei, quantos homens de rumos incertos me agradecem por eu ter ensinado o caminho correto a seguir. Esta mulher, sei lá quem é. Não quero ser comparado a ela. Que eu morra, de tiro ou enfartado, porém que meu nome surja só, nos jornais, nos noticiários, com todos os sobrenomes em letras maiúsculas garrafais. Para que todos saibam o padre que fui.
Aperto o cinto e o terço.

 

Não tem uma vez que não aconteça. Toda vez que acordo e abro os olhos, o primeiro pensamento que me vem é: cadê meus óculos? Sou míope. O que eu enxergo além do meu braço, quando estou sem óculos, é uma borra de cores. Parece que as cores rompem os contornos das formas e se misturam em uma pintura tridimensional sem foco. E se olho para mais longe, a confusão quer se ampliar em uma dimensão e assim sem óculos não me atrevo a sair de casa. Sou quase cego sem essas lentes.

Hoje quando acordei, procurei os óculos e eles não estavam lá onde sempre ponho. Geralmente alguém me socorre; alguém que enxergue além de dois palmos. Mas hoje eu estava só. Se não existissem óculos, é certo que há muito eu estaria acostumado com a situação, assim como os cegos. Porém me apavoro só com a idéia de continuar assim, quero os meus óculos. Geralmente fecho os olhos e espero, vou dormir mais um pouco. Nos sonhos não uso óculos, enxergo o que quero, como quero. Hoje não foi dia para esticar a soneca. Não esperei pelo bom samaritano que não iria chegar. Tive que levantar e ir palpando as paredes, até chegar nas reentrâncias e saliências do mar de objetos sobre a mesa desarrumada; com os olhos bem perto, para trazer à luz duas lentes transparentes, presas a duas hastes metálicas invisíveis no meio de tanta bagunça.

Imagine um mundo em que todos tivessem um tipo diferente de miopia, uma miopia extrema. Explico: depois de certa distância (digamos, um metro) não se enxergasse nada e para esse mal não existissem óculos. A visão estaria encarcerada em uma esfera de um metro de raio. Nossos olhos seriam o centro desta esfera; um abajur que iluminaria só dentro dela. Fora, a incerteza. Todos nesse mundo teriam uma lanterna destas e mais nada. Se houvesse alguém sem esse problema, veria os quase-cegos vagando pelas ruas, caminhando de lá pra cá, de cá pra lá. Teriam que para ver para crer.

E se além de quase-cegos, todos fossem quase-surdos, da mesma maneira. Não se poderia indagar, “tem alguém aí?”. Cada um seria uma barco à deriva, que, quando em quando, por coincidência poderia se chocar com outra navegação. E nesse encontro, quando as esferas da iluminação se coincidissem, não haveria mais cegueira, não haveria mais surdez; mas apenas nesse encontro de metros, na superposição das duas esferas. Para continuar assim, perpetuar este instante, os que se esbarrassem não poderiam mais se separar, ou correriam o risco de nunca mais se acharem; como dois barcos no meio do Oceano depois que transpõem a linha do horizonte.

O horizonte. É, finalmente achei o meu par de óculos. Escorregadio se meteu por baixo de folhas amassadas de jornal. Pus no meu rosto e, tranqüilo, fui passear na orla. Na praia vazia, sentei na areia, a fim de ouvir o som do quebrar das ondas, no entanto me distraí com uma linha que se estendia horizontal. Roubava as minhas vistas: a linha do horizonte.

A palavra horizonte vem do grego orizon que, como é de se esperar, significa limitar. Durante milênios, o terror de qualquer cidadela desprovida de uma boa defesa era a possibilidade de surgir na linha de horizonte algum batedor de uma tropa inimiga de tamanho e força incógnitos. Paliativos eram tomados, como pôr torres de vigia para ampliar o raio de visão, que mesmo assim eram limitados. E muitas batalhas foram decididas desta maneira, com a surpresa, pela terra ou pelo mar, do inimigo que vinha por trás da linha do horizonte.

Se sobre ombros se vê mais longe, imagina sobre ombros de gigantes. Respostas não levam ao silêncio, levam a mais perguntas. E perguntas e mais perguntas vieram à tona. Muitos baús foram remexidos atrás de óculos para elas. Viu Darwin a origem das espécies. Viram Rutherford e Bohr a eletrosfera quântica. Viu Einstein a relatividade do movimento. Viram Flemming e Mendell o gen. Viu Hubble o Big-Bang. Viram Crick e Watson o DNA.

Para não se prolongar numa lista extensa de iluminações, basta dizer que a ciência e todas as revoluções que se sucederam por esses séculos alargaram o horizonte para uma distância confortável. Porém, ainda restam infinitos horizontes que não conseguimos romper. Einstein disse: “Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana e quanto à primeira não tenho a certeza”. Sobre o Universo ainda não se tem certeza, porque o que podemos ver dele é só a distância que a luz percorreu desde a sua criação, nunca se saberá além disso. Já sobre a estupidez humana, sou mais otimista do que Einstein, mas devo dizer que há muito estúpidos que por conveniência querem permanecer sem enxergar um palmo à frente, mesmo existindo óculos para eles.

Depois de um dia inteiro, eu ainda estava na praia. A cinco quilômetros na minha frente a linha do horizonte que escurecia. Cansado de olhar para ela, desejei ir até lá, nadar para muito mais do que cinco quilômetros, para além de miríade de linhas. Beber do leite de nossa galáxia, desmanchar a beleza das nebulosas e pendurar minha rede na orla do horizonte do Universo, e ali descansar para outras jornadas. A certa altura, esqueceria que precisava de óculos para ver, mas eles estariam lá.

Miopia tem cura. Basta apenas encontrar as lentes certas, quase sempre elas existem.

Roberto Menezes (Betomenezes)

Publicado em maio de 2010 no Jornal O Contraponto.

Capa da Matéra "Miopia tem cura?" no Jornal Contraponto

Capa da Matéria "Miopia tem cura?" no Jornal Contraponto

 

I

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto aos luais de luas brutas, bustos velhos e seios apalpados

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto à areia da praia amarelada e batizada pelos cães

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Iluminado por luzes esverdeadas institucionais

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto do samba, do rock de Raul, de Legião

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto dos trios dos carnavais estacionados

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Junto aos magros corredores e hipertensos sofredores

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Quero lá meu epitáfio

II

Naquele sorvedouro de gente, quero que todos lá me encontrem
Mesmo sem querer, mesmo sem saber que eu estou lá

Quero o final da Epitácio
Sobre isso não permito objeção
Que nem depositem meu corpo lá
Que joguem meu corpo num rio qualquer
Que cremem, que joguem aos cães

Mas quero meu epitáfio no final da Epitácio
Em mármore, em bronze, em letras garrafais

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Para que o turista desavisado com suas polaróides me fotografe
Quero meu epitáfio no final da Epitácio

E quando chegar o mar, em marés mais e mais altas
Estará lá meu epitáfio

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Será lido por mergulhadores sob o mar

III

Quero meu epitáfio no final da Epitácio
Quero lá meu epitáfio
Não importa quem escreva
Que eu mesmo escreva meu epitáfio
Ou contrate um mais fácil escritor

Quero meu final epitáfio
Exijo apenas isso
Não imploro, não suplico – exijo

E não me façam bustos, estátuas, teatros
Não denominem meu nome a ruas
A becos, a guetos burgueses
Tampouco quero nome de bairros
Apenas exijo: quero meu epitáfio no final da Epitácio!

 

Não se sabe ao certo quem trouxe a notícia do cachorro doido para essas bandas da cidade. Já faz um tempo. Era de tarde. Estava quente, apesar de nublado. As crianças faziam suas brincadeiras sem o incômodo das mães. As nuvens não carregavam chuva. E mesmo se chovesse, seria chuva fininha. Preocupava essas mulheres os panos quase enxutos que pudessem vir a se molhar. Ou o líquido da leiteira que pudesse esborrar.

Uns dizem que chegaram gritando, “o cachorro doido vem logo atrás, fujam! Fujam!!”. Outros asseguram uma maneira mais delicada, um emissário tímido foi ao pé do ouvido da senhora das fofocas, “se eu fosse a senhora se resguardava, vem um cachorro doido logo atrás”. Os gritos do desconhecido, ou os rápidos fuxicos da velha foram apenas o estopim que foi queimando de orelha a orelha até chegar aos sensíveis ouvidos maternos, onde a notícia explodiu. Danem-se panos quase enxutos, leite esborrado no fogão. “Já pra dentro!” Teve menino que deixou bicicleta, menina boneca, para trás. Já pra dentro. Nem precisou dobrar, nem triplicar exclamações. Estavam todos dentro. Cadeados atando correntes nos portões. Giros e giros nas fechaduras. Família embaixo da cama, dentro do armário, atrás da cortina.

Não houve quem ousou ir às frestas da janela. Espreitar, contemplar a face da besta. Não houve quem ousou abrir as portas antes do novo amanhecer. Nessa noite, os homens não vieram para casa. Os que sobreviveram foram os que não passaram pelo caminho do cão. Mentiu aquele que o contrário disso falou. Mentiu quem inventou brilho de fogo nos olhos de dragão. Baba fluorescente nos lábios de inferno. Garras de harpia em patas jurássicas. Mentiu quem assegurou a luta corporal com o cão, e que, por pouco, muito pouco, ele fugiu de seu até ali infalível punhal.

Não se sabia quando o cachorro doido ia passar por ali. Poderia já ter passado, mais provável que não. Se tivesse passado, se ouviria ladridos. E mesmo após os ladridos, era cautela não arriscar. Poderia em sentinela estar rodeando o quarteirão, verificando o cumprimento do toque de recolher. Poderia estar na espreita, encolhido por trás de um arbusto. Ou disfarçado de bom moço, em pele de cordeiro, na esquina dos namorados. Poderia ter cansado do comprido turno diurno e buscado pernoite no armazém abandonado. Então só o insensato meteria a cabeça para fora. Só o insensato teve sono. Na noite em que surgiu o cachorro doido, houve reza, medo e a desconfiança do nunca mais.

Quando o sol despontou, a viatura da polícia circulou pela cidade. Por essas bandas, passou pela hora da almoço. Para o olhar de esperança arremessado pelas mulheres das janelas, o sargento respondia negativo, balançando a cabeça. A espera seria longa. No íntimo já sabiam. Os maridos voltaram antes da nova noite. Trouxeram grades. Amarras mais fortes. Pistolas, carabinas de grosso calibre. Teve os que não voltaram. Se não lhes devorou o cachorro, lhes devoraram as amantes.

Correu o boato que um dos vizinhos havia adotado o cachorro doido. Havia lhe dado tranqüilizante forte, amarras inquebráveis, focinheira para não latir. Foram muitos boatos que surgiram vindos do telefone, rádio, televisão. Contudo, esse era imediato. O vizinho poderia ser qualquer um. Todos estavam sobre trancas, janelas de vidro trocadas por madeira de lei. Poderia ser o da direita, o da esquerda, o da frente, o de trás. Poderia ser aquele amigo de horas no telefone. Ou o desafeto que jurara-lhe de sangue quente, “vai ter troco”. Ambos levantavam riscos. Ao amigo do telefone, possível traidor, o corte de relações, o silêncio, o ele-não-tá. Ao desafeto, um cão de guarda foi trazido para cada jardim. Não ao páreo do cachorro doido, como se sabe, mas ladravam dia e noite sem parar. Diziam ao desafeto: “para chegar ao meu dono, com suas pistolas e carabinas, tem que passar por mim”. No íntimo também sabiam, que toda proteção era nula frente ao cachorro doido.

O verão chegou e ninguém foi à praia. Torraram dentro das casas, onde nem ar mais entrava. Veio o inverno e se foi. As escolas fecharam. As crianças tinham aulas particulares com suas mães. Casais de namorados, impedidos de se encontrar, romperam ou se amancebaram. Com o estresse, poucas mulheres engravidavam. Os homens iam ao trabalho aos grupos e, vez ou outra, vinham faltando algum. Certas famílias passavam fome, pela covardia de seus chefes em não mais sair. O governo não tinha mais fundos para manter tanta gente. Bancos fecharam. A bolsa quebrou. Falaram que o caos que o cão doido causou não se limitava à cidade, à província, ao país. Se alastrou pelo continente, pelo mundo. Falaram que em alguns países estava havendo êxodo de milhões para terras mais seguras, além das fronteiras. Falaram tanta coisa que por essas bandas da cidade, não se sabia até onde a verdade era verdadeira.

A menina havia nascido depois da notícia do cachorro doido. Agora já era mocinha. E tudo que sabia do tempo antigo era através dos livros, das revistas e do saudosismo dos velhos. “Alguém já viu o cachorro doido?” Ela não era a primeira a fazer essa pergunta. Era fácil convencer, “mesmo sem vê-lo, deve-se temê-lo”. Mas a mocinha não cria. Não se convencia. Essa fé, aprendeu nos livros antigos, era cegueira. Ela queria ir a praça, formar grupos, conversar com as amigas, flertar com os meninos, ficar lá até que a lua cheia enfadada dormisse. Os mais velhos riam. Com o tempo, a mocinha aprenderia. Com o tempo, com o tempo.

Na sua idade, o tempo não era uma parábola mansa, e sim um rolo opressor que a (per)seguia. A mocinha organizou uma manifestação. Convidou todos os colegas virtuais. Ligou para a rádio. Avisou o motivo. Informou a hora. Marcou a data. “Estejam todos lá”.

E no dia marcado, ela levantou, comeu, se banhou dos prantos da mãe, se enxugou com o desdém do pai, se vestiu com seu ideal. E foi. Só rumou à praça. Não vieram os virtuais amigos que realmente nunca foram reais. Não vieram os ouvintes da rádio mais popular. Só, rumou à praça. Pelas frestas das janelas as pessoas por esses lados da cidade viram quando ela chegou. Fazia tempo que na praça alguém pisava. Tanta coisa fazia tanto tempo. Tinha gente que fazia tempo que espiava pela janela. Tinha gente que fazia tempo que via a luz do sol.

Meio dia. Plantada na praça, a mocinha ficou. Coluna ereta. Respiração profunda. Ao seu lado só mato crescido, e bichos que nunca ouviram a notícia do cachorro doido. Ao vê-los, sorriu. Era o povo, não os bichos, a viver feito bicho, só porque alguém, gritando ou cochichando aos ouvidos, um boato propagou.

“O cachorro doido não atacou a menina,” foi o que se ouviu. Cadeados enferrujados foram abertos a força. A madeira ia sendo retirada das janelas. A luz e o ar entraram. Pessoas saíram debaixo da cama, de dentro do armário, de trás das cortinas. Descarregaram as pistolas e as carabinas. Domesticaram os cães do jardim. A menina sorria, gritava satisfeita. A praça estava florida, nela havia uma única flor.

As crianças se banharam, vestiram roupa festiva. As mulheres domaram os cabelos, vestiram números do tempo de moça. Os homens se barbearam, vestiram terno. E a grande multidão saiu das casas, não só dessas bandas de cá, mais de lá, de mais lá ainda, de mais lá ainda mais. Exército de paz, de um só general, a mocinha, flor da praça central.

E quando lá, todos chegavam, o sol já se despedia. E não se sabe de onde, de trás de um arbusto, da esquina dos namorados ou do antigo armazém, o cachorro doido apareceu. Todos viram, não cabia a besta nas ingênuas descrições. Ultrapassou a marcha, e no meio da praça, aos olhos de todos, de uma vez só, a mocinha devorou.

 

Os pés unidos agora
As mãos em prece
Enrolado em bandeira

Fluminense

A vermelha estrela
Cravada na pele
qual tatuagem

Os olhos verdes
nada pesam
Flutuam
Azulados

O cortejo em cadência desce
Samba primeiro
Estação derradeira

Choram suas pequenas
Chora toda mangueira

Cova quadrada
Não lhe cabe
Bem no fundo já se sabe
Não lhe cabe o mundo

Eterno Chico,
Não lhe cabe cova
Não lhe cabe o tempo
Não há cabimento

A tropa de choque impede a comissão de frente de passar. A bateria tropeça no recuo. O caixão se perde entre as baianas.

Tanta gente,
O samba invade
Rasga-lhe o corpo
Tem pra todos
ma non troppo

Bebem de Francisco
Nas entranhas,
nenhum ai

- Politeama! Politeama! – desatina o locutor.

Na grama do estádio imaginário da Lapa, morto, o vitorioso é plantado pelo povo que seguia a passeata.

Explode o som
Nos morros, é trégua
Todos agora no carnaval
Poetas, generais
Homens de escafandros

Cantando, bebendo
Transitando
na contra-mão

Chico assinaria em baixo
O cortejo distorcido
Vivo, teria ido
Puxando o cordão

Destino de malandro
O tempo desacata
não lhe prende caixão
não lhe prende gravata

Não tem cova que o aceite
Não tem cristão que já não tenha
imitado seu grito

Será ali sua casa, nas borbulhas dos colchões incendiados dos motéis e das prisões. No grito de alerta, do grito de quero mais. Ele chegará ao canto da língua de cada um, atiçando a saudade e a vontade.

Deus lhe pague!

 

— No jogo da velha, sabia?, você só perde se quiser.
— Então qual é a graça, se ninguém ganha.
— Graça nenhuma.
— Logo alguém tem que querer perder para que o outro ganhe.
— Essa é a única possibilidade.
— Mas qual a graça de ganhar assim deixado.
— É só não falar ao outro que esse jogo é assim.
— Assim como?
— Um jogo de cartas marcadas.
— Pelo menos quem sabe e mesmo assim escolhe ganha aquilo que quer.
— O quê?
— Perder.

 

 

Tem dias que chego no bar e quero conversa. Acendo o cigarro, mas nem mesmo fumo. Só escuto as histórias dos outros bebuns que me exorcizam da solidão. Noutros dias não quero conversa. Chego tremendo, peço minha pinga e tomo de um gole só. Meus olhos vermelhos aos pouquinhos se acalmam. Álcool na veia. Disritmia contida. Estado de calma de dose medida, prazo para acabar. Preciso aproveitar até que a excitação volte. Quando ela volta, sou seu refém.

Saio do balcão e fico por aí em um canto qualquer. Me inquieto com essas doses mais freqüentes no sangue. De tornar o reverso, o natural. De minimizar o mundo, traduzindo-o apenas nisso aqui: mesas, copos, cinzas de cigarros. Ontem mesmo vi um beija-flor entrar desavisado. Em vôo rasteiro, tentou bicar sobre alguma mesa. Glicose ele queria. Disseram a ele que da boca dos poetas escorre açúcar, um líquido viçoso, mais denso que o mel. O que ele provou estava longe de ser isso. Saiu no primeiro pontapé. Pobre colibri. A meu mundo, ele não pertence. É do mundo dos pássaros frágeis. “Ave de louça, segue reto. Tenta os cafés. Lá até jogam migalhas de pão.”

O bar é de animais fortes, seres bizarros, encantados, afligidos por todo tipo de pestilências. Agora mesmo aos meus pés, um desses roça seu corpo em minha perna e sacia com carnalidade os desejos. Deixo até que exausto pára. Com isso também me sacio. Aprendo. Tem vez que confundo esses bichos com meus companheiros. É impressão minha, ou estamos nos parecendo? Nos parecemos tanto. Quando há briga, correm para provar do sangue dos socos e das dentadas. Não gosto de brigar, mas, às vezes, preciso ter uma cadeira para sentar. Brigar é ruim, machuca os punhos. Punhos servem para muita coisa além de brigar. Gosto de estar aqui, ébrio, independente do que a mim aconteça.

Não escuto mais as buzinas dos carros apressados, nem sinto mais o sorriso da morena que passou sem me notar hoje pela manhã. Não faço mais versos para a morena. Nem para ninguém mais. Deixei de ser poeta desde o dia em que me denominei assim. Agora sou alfaiate das palavras. Minha tesoura é tanto ferramenta quanto arma. E se morena quiser verso, faço; mas antes tenho que fazer uma análise completa. Rasgo seu ventre com minha tesoura dourada. Vou direto ao fel, pâncreas, essas coisas digestivas. Assim, conheço por dentro a menina, o que ela come, o que ela consome, o que ela rumina. Não conheço a morena pelo lado de fora, aquele sorriso é um disfarce de uma caradura. Por isso que gosto do bar. Aqui, de tantos socos e dentadas, as pessoas se abrem, se arregaçam e deixam o lado de fora tão banal, tão comum, que nem noto mais.

Um dia vou chegar e pegar um a um. Com minha tesoura, cortarei o que melhor existe de cada um deles. Coserei com cautela essas partes e farei assim meu parceiro ideal. Juntos, faremos um samba, uma ode, um poema épico intimista. Do resto, da carne, peles, nervos, tufos de pêlo que não aproveitei dos bebuns, cozerei e servirei de tira-gosto aos desavisados que diariamente, sem par, sem bar, entram e saem sem perceber seu cerne. Esse petisco dos deuses ativará regiões de seus cérebros que andam em desuso. Foram enfeitiçados pelas tantas e tantas buzinadas da morena.

Numa mesa do canto, eu e meu parceiro riremos da mudança de agir e pensar dos que provaram minha porção. Pediremos então mais uma dose, e riremos juntos de nossa tolice, porque só aí lembraremos que no bar nunca houve garçom. Só um dono sóbrio que, em clichê, faz pose de mau.

 

Desde que sei de mim, me vejo sentado neste meio-fio, no meio de uma ladeira. Minhas pernas esticadas, o córrego de lama em correria sob as coxas. Eu olho pra cima e pra baixo. Faróis de ambos os lados dos carros que não me enxergam. A água desce sob as pernas, nítida em sua essência, e fico na idade média dos sentidos.

No ser de tabaco que eu fumo, imagino mil imagens, por quase uma polegada, que me levam daqui. Tenho entre os dedos uma sinagoga com luzes no topo, o papel é a tinta branca que vai corroendo com as décadas. Torres em miniatura amarelando minhas unhas.

Lanço a piola aos pombos invisíveis e sigo à pedra. Dou passos vazios em direção a passos vazios; e a prisão, mantida comigo desde sua nascença, se chega, pede uma beira. Eu, cedo, cedo. Ela me engole.

As paredes me acobertam por um lado, por outro lado, por outro lado, por outro lado, por outro lado e por outro lado. São de sólida rocha, sólida por dentro. Provável que também por fora. A fumaça que sai é mais rocha de qualquer outra rocha. Sou uma ratazana metida no meio desta gaiola de pedra que me acompanha com fidelidade de cão.

A pedra queima nos meus dedos, espero que os poucos minutos de inconsciência premeditada venham. Quando chegam, deito minhas costas na metralha de prisões destruídas que por ironia me aninham, feito um pássaro de tabaco em um saco de farpas e alumínio.

O rio de miséria continua a fluir sob minhas pernas e me incomodam os sonhos de paranoia; e de lá me tira, sacudindo dos jardins secretos, as margaridas. Meus lábios racham e eu acordo pra me remendar da umidade do amanhecer. A navalha da luz me apresenta às paredes. O quadrilátero onde me enterro acordado é, sem sorte, o mesmo, sem mudança de cores, de textura. A fumaça já se foi da cabeça e agora não há nada que me impeça de chorar, só eu mesmo. Não tenho furos, buracos pra vazar. De dentro de mim não há fuga, só secura. O que é meu é meu. O que é meu é feito víbora condenada a desenhar as vírgulas do deserto.

O sol se põe novamente. Em alguma varanda de um algum palácio deve existir alguma beleza neste desmantelar do dia. Aqui no meio da ladeira, só pressinto a vela acender entre os meus dedos, o deserto esfriar, a fumaça novamente quer se mostrar presente. Meus olhos ardem ao olhar a lua.

Fragmentos de pequenas facilidades são pedaços de mim que vão indo: meus sapatos, minha televisão, meus músculos. Sou carne corroída sobre osso. A minha alma, então, sapateia sobre a incerteza da brasa apagada. E deste jeito vou ascendendo sóis que amanhecem, bem logo os meus novos dias de sequidão se encurtam fissurados. Amanheço luas.

Quero me livrar desta gaiola sepulcral. Quero abandonar o meio da ladeira deste pedregal que me desapruma desde nascença. Ou escorro com o rio límpido dos esgotos desembocados das casas alheias, aos bocados que vão se retirando de mim. Ou bato minhas asas como um belo demônio e peço socorro às alturas. Não sou anjo, já fui há muito tempo quando minha mãe me chamava assim. Não sou feito aos pedaços, um dia serei, quando amadurecer a minha carne sob a terra.

Quem dobrará a esquina pra me redimir com perversa salvação? Uma noiva vestida de névoa? Um mensageiro em cavalo negro? Torço pra que um deles seja meu salvo conduto. Que o meu juízo final venha logo, não em pequenas fissuras, a trotes atrozes de motores a quatro tempos, no berro do ferro arrebatador de carne. Que meu sangue escorra ou se eleve aos céus, como castelos andantes ou barcos de papel.

Pedregal
Thiago Lia Fook

entre pedras… viver?

sonho de répteis
não de humanos

entretanto as águas que correm
são fortes e tantas que os furos
comprimem as casas
e as casas comprimem

os homens
não se tiram poemas de pedras
no entanto na terra escorre
a promessa:

corações
peregrinos
atravessam
o deserto

Tagged with:
 

Quando pisei no tablado, o povo queria ver sangue. O povo não, o povo nem sabia que eu existia. Eu queria ver o sangue escorrer, e espirrar no rosto da plateia. A medalha de quem vai para a guerra é o sangue fugidio das artérias. Não era bem o povo que queria sangue, era eu mesmo que achava que iria sangrar. Não ia segurar você para sempre como você mesma viu.

Não conheço você de hoje, nem de ontem. Cresci como homem ouvindo falar de você. E você nem me conhecia, nem sei se você hoje já me conhece, foram tantos, não é?

Mas o dia chegou, e eu estava preparado. Amava você antes mesmo de ter você. Meu coração estava a mil. Alguns rezavam ao encontrar você, pedia aos santos ajuda para os seus desaforos. Não fiz prece, meu coração batia em um ritmo de locutor de hipódromo.

Quando me vi, já estava dentro. O sol estava fraco. Eu sorri quando vi você, na vizinha augusta da vida. Mas eu conhecia você, já disse. Como uma loba desgraçada, você chegou falou: vem comigo. Eu fui. Eu estava nem tão vulnerável quanto parece, mais calejado de outras experiências. Minhas duas últimas foram traumatizantes antes de você. A primeira foi pequena, mas dura: cruel, era muita rua, muita areia para o meu caminhão. A segunda, atacou-me as tripas. Era plana, calma, e assim me enganou por ser fácil. Você, te conhecia! É a terceira vez que digo, e vou repetir quantas vezes precisar. Quem não conhece estrela de televisão? Você é o meu legado. E que em mim, de vez, encaliçou os meus calos.

Era um traumatizado, e estava aterrorizado por encontrar você. Você me consolou. A sua consolação era uma ladeira leve, que me abraçou, e me deu norte. As músicas que eu ouvia no meu celular, só lembravam você. Você foi boa, não só comigo, com todos. Nunca exigi de você fidelidade. Venhamos e convenhamos, é se achar demais da minha parte, ter você só minha. Você, Rosa Silvestre, é para vinte mil muitos homens e algumas outras mulheres. E você consolava a todos.

Eu queria fotografar tudo, para me gabar na mesa de bar. Você olhava pra mim, e eu olhava pra você como um arquiteto centenário embasbacado com a cidade de pedra por trás de uma lente distorcida, um fotógrafo qualquer, feito menino, que afobado quer mostrar a mãe o que aprendeu no último ensino. E o que eu aprendi? Rosa Silvestre, o que aprendi foi dizer que amava você. Um brado da Ipiranga! Proclamei a República antes mesmo de ela vir a existir. E quando ela veio, você não era mais a consoladora de experiências antigas, era minha; e eu, seu por inteiro. O suor brotando em minha camiseta era você; no mp3 palpitando em meu ouvido você dava sentido à Carmina Burana. Estava mais excitado que um bafana bafana.

...olhava pra você como um arquiteto centenário embasbacado com a cidade de pedra por trás de uma lente distorcida

...olhava pra você como um arquiteto centenário embasbacado com a cidade de pedra por trás de uma lente distorcida

A música que ouvi enquanto estava com você tocava em mim, criando a trilha sonora que para sempre  vou lembrar.

E outros corriam, queriam me passar; e me passavam, fácil. Eu sabia. Queria aproveitar aquela anestesia da descida para dentro de você pelo maior tempo que eu pudesse. Sabia que logo em breve o amor que eu sentia ia ter tom de Fausto. Os outros corriam e tinham você mais rápidos e intensos que eu, podia ver nos seus olhos. Com você descobri um novo sentido para a expressão, ser passado para trás. Eram muitos, milhares que me passariam, eu bem que sabia.

Fechei os olhos por dois minutos, enchi a boca a boca d’água e te beijei. “Estou aqui contigo” eu gritava para o mundo! Fogos entoaram no céu. E eu descia, o teu colo era minha valia. Você é cenário de cinema. Cada esquina da tua passagem era um poema de rima fácil, das esquinas da vida fácil e da vida não tão fácil assim.

Comecei a perceber suas alterações de humor, quando fui elevado, numa primeira dificuldade. Atirou em mim, mas errou, eu estava mais forte do que você pensava. Não era uma ladeirinha que me derrubaria. Alguns, vi, ficaram ali como os cegos do filme de Fernando Meirelles. Minhas pernas estavam fortes, feito pneus de elite da Pirelli. Os fortes passavam a mil. Uns já chegavam no fim da sua linha, Rosa. Eu no meu trote desfrutava até do voo do beija-flor que imaginei cruzar as marginais por trás opacidade das altas paredes que você levantava para mim. Desfrutava como o deitado na mesa do dentista esperando a broca com a boca cheia de xilocaína. Desfrutava as miçangas penduradas nas bordas de camisa que você parece que bordou por séculos.

Não era uma ladeirinha que me derrubaria. Alguns, vi, ficaram ali como os cegos do filme Fernando Meirelles.

Não era uma ladeirinha que me derrubaria. Alguns, vi, ficaram ali como os cegos do filme de Fernando Meirelles.

Rosa Silvestre, você só dá uma vez no ano. Oito dias após o solstício de verão. Você não é de sair de casa todo fim de semana. Só se arruma para saudar o ano novo chegar. Não vai ao mar, é intrigada com iemanjá ou a maresia não faz bem a você. Prefere o imprevisível tempo de longe do mar, e pra minha sorte o clima correu comigo. Não choveu, não esquentou. Rosa Silvestre , você estava linda. E assim ficou, quando lá pra metade de nossa relação, nossas crises ficaram mais intensas e entre altos e baixos, ironicamente era nos altos (do baixo pro alto) que você se tornava mais intolerante e eu, um mero mendigo, atrás de seus favores. Parecia que você dizia: “fica comigo quem pode me aguentar!”, e muitos podiam mais do que eu. Não sofriam quanto eu com aquela realidade cruel onde você, Rosa, confiante, me entregava a íngremes desafios, que até um dia desses eu achava, e eram instransponíveis.

Você achava que eu ia te deixar. Em um ataque de euforia, dizer que desistia deste sadismo triste que você ainda estava reservando para mim, e eu ironicamente já sabia, mas mesmo assim continuava. Lá pelo oitavo quilômetro do seu coração, não tive fôlego mas continuei, você olhou para mim como se estivesse feliz, e esta sua felicidade foi um balde de água fria sobre minha cabeça, coisa que eu precisava. Veio o sangue nos olhos, como a todo tibiriense, o necessário para permanecer a passos largos a nossa saga, (ou só era minha?).

Lembrei como foi a sua consolação. E também do cemitério que havia lá quando eu passei. Quantos morreram ali? Eu superei, não foi? E quando descobri o seu teatro de mentiras, você aí achou que eu não ia aguentar. Mas conheço você como a palma de minha mão. Deixei que me passassem, um a um, quatorze mil homens até o fim da tua linha. Dei colher de chá e minhas costas serviram de viaduto para a passagem deles. Eu, na minha, me refresquei e até vi que você, perplexa, ainda tentava manter o sorriso.

O meu peito foi subindo, e o meu fôlego se esgotando. Encarei o nosso fim com prepotência, confesso, a cada passo que eu dava era como se eu encarasse um brigadeiro com o olhar de general, e não foi fácil não, viu? Rangi os dentes para aguentar suas torturas e malícias. Você é cruel, da pior espécie, que consola como um pedra 90 e depois devora-nos como a uma pedra de crack. Viúva negra dos infernos, consome os hippies e os homens de ternos. Trinquei o dente e permaneci com você, ao teu lado, leal. Pedra 90 fui eu.

Trinquei o dente e permaneci com você, ao teu lado, leal. Pedra 90 fui eu.

Trinquei o dente e permaneci com você, ao teu lado, leal. Pedra 90 fui eu.

Porém, como todo bloco de Olinda chega ao seu final, tivemos o nosso. Como Renato Russo falou: se a via crucis virou circo estou aqui. As pessoas aplaudiam a desgraça alheia. “Entrem, venham provar”, era o que queria gritar. E bem no fim, a uma fração de um passo do fim, pensei em parar o tempo. Fincar o pé a dois dedos da linha de chegada e ficar com você, parado, até hoje lá, transformar este filme Paulicéia Desvairada, em quadro moderno, Um Tarsila de mim e de você, Rosa Malfadada.

Não parei. Cruzei o fim. O relógio parou. A nossa relação chegou ao fim, com a mesma cara do começo, só que eu estava mais forte e bombardeado. Demorarei para me recuperar. Mas não sou de me enganar: de mim, você não pode lembrar, mas quem sabe, hein? Donzela metida a Santa, quem sabe no próximo ano, quando o seu único fruto, Rosa Silvestre, brotar de você, eu possa estar lá. Não sei em que condições. O certo é que serei novamente consolado e, no fim, humilhado por você? Quiçá! Quiçá! Quiçá! (Repito três vezes pra marcar) Filha do túmulo do samba, escuta o meu lamento: até lá, outras passarão por mim. Descontarei nelas o mal e o bem que você fez comigo e que até hoje deste amor eu não consigo esquecer.

Tagged with:
 

Sobrevivi a uma dúzia de frontes até que meu sucesso como estrategista me levou aonde estou, ao posto de General. Hoje é sábado, mas tanto faz que dia seja. De frente a telas de LCD, somo os prejuízos das últimas batalhas. Procuro padrões, alguma falha na artimanha inimiga. É árdua essa busca. Os pontos fracos, se eles existirem, estão bem escondidos. Insondáveis. Tento, como no xadrez, prever o passo seguinte. Falhamos, várias vezes, milhares morreram por isso. Contudo, sem o meu esforço essa conta passaria a milhões. A fio, passo horas, viro noites, esvaziando xícaras de café colombiano. Meus subalternos andam dizendo que pareço um zumbi. Me chamam para relaxar no bar. Como posso relaxar perante a estatística de sangue e, intimamente, sabendo que talvez eu seja o único capaz de reverter essa escalada de destruição. Compreendo. Para eles nada como o torpor do álcool e das meninas para desfocarem de seus pensamentos o iminente e funesto futuro. Foram todos brindar na prévia do fim do mundo. Não acredito no fim de nosso mundo. Se calhar, nossa subespécie poderá sucumbir, nesse ou noutro percalço, não sei. Exata é minha certeza de que a terra, essa esfera achatada de pedra, água, metal e gases, senão eterna, tocará às portas da eternidade, até o dia em que será devorada pelas línguas do sol.  Até lá, se transformará em lares de outros seres racionais e irracionais, que já existem ou que possam vir a existir. E enquanto os que prestam continência, por essas horas, rezam com canções profanas pela chegada do domingo, sinto na pele e nos pêlos qual deus ao ver sua imagem e semelhança se voltar contra ele. Nesta guerra entre seres de mesma espécie, os do outro lado têm toda a vantagem, como há anos, já previ. Fui à frente de batalha, vi como a artilharia se organiza, como seus tanques são alinhados. Entre eles há uma comunicação mais avançada do que a nossa. Aquela fala calma, rouca e descompassada nunca me enganou. Aproveitaram da nossa tecnologia de maneira mais efetiva, coisas que por séculos, ou mesmo milênios não percebemos, eles em menos de quatro décadas desvendaram. Há cinco décadas, eu, criança via notícias na TV sobre clonagem e imaginava fantasioso até onde poderia chegar isso. Dois anos depois da primeira clonagem humana, uma empresa sul-africana apresentou o que até ali era apregoado no meio científico como uma quimera: um exemplar de Deinonico, um dinossauro da mesma família dos velociraptors. Em poucos meses, todo tipo de bicho pré-histórico era exposto mundo afora. Lembro que perto de onde eu morava vieram cobras gigantes multicoloridas cujos antepassados vagaram pelo mar no período Cretáceo. Passaram filmes, ouvi palestras. Foi naquele dia que tornei-me paleontólogo moderno. Uma profissão das mais promissoras da época. Quando entrei na faculdade, já se podia comprar em Pet Shops pequenos ornitópodes herbívoros, muito dóceis e fiéis tal qual os cães. Mas nada chocou tanto quanto a ousadia que a Clonus, fundação multinacional financiada pela Sony, Intel e Bayer, fez no aniversário de cem anos das Nações Unidas, onde exibiu uma turma do jardim da infância, denominada de Ombros de Gigantes. Brincando com jogos coloridos, disputavam a atenção das pedagogas, Einstein, Darwin, Newton, Mozart, Nietzsche, Freud e da Vinci. Embriões desses espécimes eram vendidos a preços de viagens lunares. Depois disso nada mais impressionava. Noutros séculos houve revoluções industriais, econômicas, políticas, e culturais. Neste, vivi a revolução genética. Tudo começou a ser clonado, até clones de clones. O Vaticano foi invadido por radicais ortodoxos em busca do santo sudário para um possível clone de Jesus. O tecido até hoje desaparecido, nos deixou a incógnita de que haja um ou vários salvadores por aí. Não creio que algum tipo de fotocópia irá nos salvar, e sem eu. Este sentimento carrego desde o dia em que estorou a notícia de que um novo tipo de clone era usado sob regime de escravidão em refinarias de petróleo no Círculo Ártico. A imagem branca de neve era o pano de fundo para os agasalhados corpulentos seres de face rude e cabelo ruivo. Olhos profundos. Profundos olhos profundos. Aquilo não parecia comigo. Meu pai era homem bruto, mas nos seus olhos podia-se ver HUMANIDADE. Virtude que levou à cova sob os escombros de nossa casa num dos primeiros bombardeios que inaugurou a Guerra. Meu bruto pai foi humano até quando/onde pode ser. Aqueles seres profundos de olhos profundos por mais que se diga, não são humanos. Apesar de pertencerem a nossa espécie, repito, não são humanos. Não evoco argumentos religiosos, nem filosóficos. Tampouco ligo para as ardilosas discussões de coincidências genéticas. Nunca vi um por cento de humanidade em seus olhos. Isso a mim basta. Chamo-os de Neandertais. São primatas, gorilas, chipanzés evoluídos. Abomino aqueles que os põe em um degrau acima da evolução. Se eles têm qualidades que a nós sobressaem é que ainda não as entendemos. Até há pouco não entendíamos os golfinhos, e justo por isso os mistificávamos. E sempre quis desvendar esses códigos, iluminar o sistema de estratégia animal. Mostrar que o pavor desta ameaça é só o receio do desconhecido. Para isso me formei e me especializei em paleoantropologia. Nos congressos, conferências, mesas redondas combati ferrenho os novos homens. Propus a proibição da clonagem, a esterilização dos nascidos férteis, segregação e, em último caso, a eliminação maciça da raça que se espalhava daninha pelo planeta. Acusaram os que compartilhavam de minha idéia de neófobos, xenófobos, fascistas. E sem nenhuma oposição, o movimento pró neandertal culminou na abolição da escravatura. Criou-se o dia mundial do novo homem. Os cristãos já os chamavam de irmãos, filhos de um mesmo deus. Alguns se tornaram estrelas da música. Adquiriram o direito de sentar aos nossos lados nos transportes públicos. Fez-se cotas nas universidades públicas. Com eles, pela primeira vez, competimos nas Olimpíadas de Santiago. Fomos massacrados no quadro especial de medalhas. Eu estava lá quando aquele neandertal, após fulminar o recorde dos cem metros rasos, apontou para o público com um sorriso de feiticeiro satisfeito com seu encosto, e se inclinou falsamente respeitoso para o camarote dos chefes de Estados, quando no fundo seus postos era que desejava para sua raça. Chegaram às vereanças, prefeituras, câmaras dos deputados e o senado, e ligeiro, em país por país foram situando seus líderes, como nos jogos de tabuleiro que eu brincava na infância. Primeiro dominaram os países nórdicos, depois toda a Europa e parte da África. E quando surgiu o primeiro estorvo motivado por um entravo econômico que nem lembro mais qual, esses países, dominados por aqueles, formaram uma coalizão e invadiram o Oriente Médio. Soldados neandertais foram clonados para esse fim. Neandertais a toque de caixa. Milhares após milhares, logo chegaram aos milhões. Hoje já passam dos bilhões. Foram cinco anos de perseguições aos humanos dentro do regime neandertal, os que não fugiram para as terras livres, foram exterminados. Durante esse tempo, os cientistas neandertais desenvolveram uma tecnologia chamadas por eles de protônica, até hoje de natureza desconhecida por nós. Do lado de cá, os governos dos humanos que restaram investiram todos os tostões para fortalecer o poderio militar. Estávamos certos da vitória, tínhamos proteções contra ataques nucleares e homens dispostos a matar e morrer por suas descendências. Essa certeza foi entornada ao chão, no dia em que, como mostra de soberania militar, um, apenas um míssil destruiu todo o Japão. Tsunamis por todo o mundo arrasou populações costeiras. Era a tecnologia protônica, o trunfo que até hoje nos aleija. Eles usam isso em tudo, nos tanques, nos fuzis, nos caças. Ainda não nos destruíram porque estamos plantados sobre os recursos naturais que precisam para a manutenção de suas existências. Seria um suicídio dos neandertais destruí-los. Deveriam vir aos nossos territórios, tomar palmo a palmo, cidade a cidade. E estaríamos na espera. Ao ouvir as trombetas dos rumores de guerra, deixei na casa dos meus pais, minha mulher e minhas filhas. Alistei-me. Fui às trincheiras ver com meus próprios olhos, sem o intermédio tendencioso das câmeras televisivas, o desdobramento inimigo. Matar quantos pudesse, vê-los sangrar. Extrair informações em diárias sessões de torturas. Tornei-me conhecido pela maneira que eu controlava meu pelotão. Aprendi rapidamente alguns dos artifícios inimigo, a minimizar os estragos protônicos. Joguei pesado em um ataque noturno a uma de suas bases. Destruímos um laboratório e um depósito de armamentos. Após a missão voltamos para a base onde fui saldado. De tenente subi a Capitão. Depois d’outras batalhas cheguei a General. Comandei exércitos de homens e de seus clones. Chorei ao perder batalhas. Minha cabeça não estava mais lá. Eu deveria olhar o Globo como um todo para entender como eles se mexiam no jogo de tabuleiro. Cheguei na base secreta de Bogotá há dois anos. Lidero as forças armadas do cone sul. Todas as fichas que apostamos foram perdidas. Metade da America sucumbiu. Os exércitos da Oceania selaram uma trégua e se uniram contra os nossos. Nos nossos o desespero cegou os comandantes. Eu, contudo, permaneço no mesmo ideal. Bebo mais uma xícara do café que mesmo colhi mês passado, num desses raros dias de folga. Uma criança carregava o cesto, enquanto eu colhia os grãos, pegando os maduros, deixando os verdes para que outro em outro dia colhesse. Quando falei para o menino quem eu era, ele sorriu e me falou: “Oxalá, que deus o ajude.” Sorri e lhe perdoei por sua inocência. Tolo menino, oxalá Eu o ajude. Sem minha intervenção, nem barba nessa cara indígena crescerá. Sou o único que pode adiar o apocalipse. O teu tolo deus por essas horas deve estar deitado em uma rede, escutando Vinicius. Porque hoje é sábado. Hoje ele não trabalha. Só eu concentro o desejo dos homens: permanecer na terra a ele destinada. E nada, absolutamente nada, poderá impedir a marcha neandertal, a não ser eu. Meus subordinados por essas horas estão bêbados. Me ligaram várias vezes, perseveram para que eu brinde com eles, beije uma ou duas meninas. Mas o meu corpo está cansado, quero cama, esgotei-me. Estou há dias sob o efeito das anfetaminas e da cafeína. Preciso descansar…

Caio César Brito Neto, 19 anos, estudante de engenharia elétrica, cai no sono ao lado do seu computador portátil. Ele não saiu. Não bebeu. Não beijou uma ou duas meninas. Longe dos seus olhos, na tela LCD widescreen, o exército de neandertal invade as bases que ainda resistem, decretando o fim do mundo para a espécie Homo Sapiens Sapiens. Na manhã de domingo, Caio se lamentará de não ter apertado Ctrl+S e salvo a última configuração dos seus exércitos no penúltimo estágio do jogo Men War – The Neanderthal Expansion

 

Looking for something?

Use the form below to search the site:


Still not finding what you're looking for? Drop a comment on a post or contact us so we can take care of it!

Set your Twitter account name in your settings to use the TwitterBar Section.

Bad Behavior has blocked 227 access attempts in the last 7 days.